No hospital de São João, na enfermaria do Serviço de Psiquiatria, os assistentes operacionais e enfermeiros tinham um passatempo vespertino de grande interesse: jogavam Tetris.
As intensas e animadas actividades lúdicas tinham início lá por volta das 15 horas, ou um pouco mais cedo, e envolviam igualmente os pacientes mais velhos, que nelas participavam, confortavelmente sentados nos seus cadeirões.
«Ah, que giro, os velhinhos brincavam com os BrickMania da Atlantis?», perguntar-se-á o amável leitor, já imbuído de uma belíssima lógica da batata digna do mais puro vulcano de Fânzeres. Não, com cadeirões, respondo eu.
Vamos por partes, pois isto parece muito mais circense do que é.
Havia, na intersecção entre os dois corredores ortogonais das enfermarias feminina e masculina, que formavam um «L», uma sala de convívio. Era nessa sala que os doentes passavam a maior parte do tempo, quando não andavam a deambular ao longo dos corredores.
A sala era relativamente grande, tinha duas ou três janelas que a iluminavam bastante bem, e um televisor pendurado numa das paredes, que tendia a estar com o volume naquele patamar irritante que eclipsa as conversas e as ideias.
A sala de convívio, ou de estar, ou de actividades, ou de jogos, conforme lhe queiramos chamar em função da altura do dia e do ascendente de Saturno em Aquário, somava a todos estes majestáticos cognomes «sala de visitas». Claro que apenas era conhecida por sala de visitas pelas… visitas.
E como se passava isto tudo? Como vamos chegar ao Tetris? Recordam-se? Eu disse que se jogava Tetris à tarde. Calma, uma coisa de cada vez, para não ficarmos com cãimbras no encéfalo.
Os doentes mais idosos passavam quase todo o seu dia imobilizados em cadeirões, com grandes lençóis que davam a volta ao tronco, por baixo dos braços, fortemente atados com um nó na parte traseira. Dava para perceber que havia uma apuradíssima técnica milenar, criada por um velho sábio e transmitida a pouco iniciados, para executar aquele trespasse de rebitortas e rococós em laçarote, de forma ao velhote não se escapulir para Del Boca Vista.
Como se já não fosse suficiente os velhinhos verem anúncios a aparelhos auditivos durante toda a manhã, uns dez ou vinte minutos antes da «hora da visita», o rosário de cadeirões era empurrado, com os respectivos passageiros, pelo corredor que levava à enfermaria masculina.
Ali, mais ou menos a meio daquele corredor, quase em frente ao elevador, ficava a entrada para a copa. Sim, os cadeirões eram levados para lá.
Como a copa não abundava em espaço, e convinha exercitar os músculos e a mente dos assistentes operacionais como medida preventiva da senescência precoce, o carrossel, sempre com os velhinhos a galope, era «arrumado» de forma a que os cadeirões encaixassem uns nos outros. Imagino que, se fizessem uma linha, ganhavam 100 pontos, quatro linhas em simultâneo já daria direito a 1000 pontos.
Assim, tínhamos um doente virado para a saída, outro encaixado de forma a ficar a olhar para as mesas, e por aí adiante. Tentava-se desta forma evitar ao máximo aquelas lacunas que se acumulam em velocidade vertiginosa, mesmo antes do Game Over. Não raras vezes, quando o número de doentes «encadeirados» era maior, havia a necessidade de empurrar algumas mesas e cadeiras para as juntar a este jogo de Tetris. Eram as peças bónus.
E os velhotes lá ficavam o resto do tempo, quase até à hora do jantar, pois notava-se que a pressa em empurrar os cadeirões de volta para a sala, era muito dada a lapsos de memória: bem diferente daquele blitz que movia a azáfama colectiva nos momentos prévios à «hora da visita».




