Da primeira vez que fui internado no Magalhães Lemos, havia um conjunto de três letrinhas apenas que andava na boca de todos os doentes. Não, não era «mãe», mas sim OBS.
Reparei que esta sigla era pronunciada com algum temor, como se uma qualquer ameaça sobrenatural pairasse sobre todas aquelas cabeças. Se um grupo de doentes estava numa conversa animada, à mínima menção a OBS, os semblantes fechavam-se num tabu emudecido, que rapidamente fugia para outro tema.
Nunca soube verdadeiramente o que é que aquela coisa, OBS, queria dizer. Suponho que seria «observações», ou «sala de observações», mas também poderia muito bem ser um qualquer código, uma palavra perdida, tal o secretismo dos iniciados.
Com o tempo e com os sucessivos internamentos, também eu cerrava o semblante quando ouvia falar em OBS. Percebi que, fosse lá o que aquilo fosse, seria um local terrível, com agulhas, coletes de forças, mordaças, e pessoas amarradas a camas com enormes holofotes por cima. E isto davam a entender os doentes; aliás, muitos juravam ser mesmo assim a OBS.
Perante a visão de tal purgatório lendário, interpretado por todos nós como as negras portas do Inferno, quiçá o próprio Inferno, o recurso à ameaça com aquelas três letras, como resposta a qualquer altercação, era geralmente eficaz. Os enfermeiros sabiam-no, os auxiliares também, todos o sabiam. O «mando-te para a OBS», acompanhado por uns olhos arregalados, tinha, quase sempre, o condão mágico de acalmar os ânimos, deixando apenas o mastigar em surdina de algumas palavras menos agradáveis para as mães dos enfermeiros.
Ora, estive lá uma vez. Apenas uma vez que serviu para todas as que poderia lá ter estado.
E porque fui para lá? Um castigo? Quase, mas bem poderia ter sido, dado o que vi durante aquelas 36 horas.
Convém agora contextualizar. Em quase todos os meus internamentos, entrei pela «porta grande», ou seja, «vai ter comigo a meio da manhã ao hospital, pedimos para abrir uma consulta, e segues para o internamento». Não foi o caso de quando tive o excelso desprazer de conhecer a OBS.
Nessa ocasião, fui enviado pela Urgência Metropolitana de Psiquiatria do Porto (UMPP), que funcionava no Hospital de São João — esta urgência era tão caricata, que merecerá no futuro uma crónica própria e particularmente expositiva. A prática era esta: o paciente era observado em urgência no São João por dois psiquiatras, e depois esperava umas horas, para sermos mentirosamente eufemísticos, pela limusine que o levaria em grande estilo até ao Magalhães.
A limusine não levava só um VIP: ía-se aos pares ou trios ou até quartetos, como numa obra de Haydn. No entanto, o serviço era pobre: nunca houve uma flute de Moët et Chandon, nem sequer um triste caixote de espelhos com aqueles Ferrero Rocher a fingir comprados na Makro.
A passagem pela OBS, no caso de se chegar de noite ou de não haver vaga nas enfermarias, era obrigatória. Daquela vez cheguei às 20h08, segundo registei no caderno, e levei pela única vez na minha vida com dois Haldol pela goela abaixo antes de ser admitido aos Augustos Mistérios da OBS.
A OBS era um edifício térreo, e, pelo que me apercebi, aquela parte que conheci talvez não fosse tudo o que existia. Faz sentido que houvesse coisas semelhantes àquelas salas tão bem descritas pelos outros doentes, ou até mesmo quartos de isolamento… é bem possível, mas nunca os vi. Ou então, se calhar, eram apenas parte de uma daquelas lendas urbanas, como fazermos xixi na cama por brincar com fósforos.
Após entrar num vestíbulo típico de um pequeno edifício público, fui atendido num consultório junto da entrada e conduzido à «enfermaria». Usei aspas porque ali na OBS não havia uma enfermaria a sério, mas antes um espaço de permanência temporária, uma ante-câmara enquanto não nos era designada uma enfermaria; fosse porque ainda não houvesse vaga, ou então pela hora tardia da admissão.
O espaço era constituído por um pequeno corredor, com duas casas de banho fronteiras a uma sala com alguns cadeirões e uma televisão incessantemente aos berros. Nessa sala havia uma porta para um pequeno pátio exterior mais ou menos quadrado, devidamente encaixado entre muros altos.
Estavam demasiadas pessoas naquele serviço. Sim, muitas, mesmo muitas! Homens e mulheres que vagueavam pelo pequeno corredor, batiam no vidro da porta a chamar em vão pelos enfermeiros, e visitavam o tal pátio andaluz onde só faltavam sardinheiras e um falsete da Malagueña. Tive sorte em dormir numa cama, pois vi diversas pessoas que passaram a noite no chão, em colchões encaixados da melhor forma para aproveitar o espaço.
Descobri na altura que, afinal, a OBS se chamava Serviço de Intervenção Intensiva (SII), modificado mais tarde para Unidade de Intervenção Intensiva. Uma espécie de local dedicado a situações agudas, que tanto poderiam vir da tal UMPP, como do próprio Magalhães Lemos.
Fui transferido para a enfermaria D3 às 10h59 do terceiro dia. Posso dizer que bastou. Bastou mesmo! Aquela tal de OBS ficou apenas como uma má memória e alguns rabiscos nos meus apontamentos. E quanto a Augustos Mistérios… saí de lá ainda mais ignorante do que quando entrei. O que talvez nem seja mau de todo, pois estou convicto de que pela montra percebera o que havia no armazém.




