Regra geral, não são permitidos alimentos nas enfermarias. Ou melhor, não podemos levar alimentos de fora.
Existem, porém, excepções, e só em casos muito particulares. Por exemplo, recordo-me de uma doente que gostava de uma margarina vegetal de uma marca específica que não vou aqui citar: Flora. Neste caso, o pacote que tinha levado de casa ficava guardado no frigorífico da copa, e ao qual apenas tinham acesso enfermeiros e funcionários. Quando a minha colega necessitava da margarina, ao pequeno-almoço e à ceia, o pacote era-lhe dado até ao final da refeição, após a qual regressava ao frigorífico.
Ora, durante o meu primeiro internamento, no longínquo ano 2000, no Conde de Ferreira, logo na segunda ou terceira visita, a minha mãe levou-me chocolates. Eu sempre gostei de chocolate, e na altura comia duas ou três tabletes seguidas — ainda tinha metabolismo de adolescente, marchava tudo e não engordava.
Quando me preparava para levar o chocolate para o quarto, juntamente com a roupa lavada — todos os dias a minha mãe levava-me roupa lavada e recolhia a roupa suja —, o enfermeiro, após uma pequena revista ao saco plástico, encontrou o chocolate. Foi aí que fiquei a saber ser absolutamente proibido ter alimentos nos quartos, e na enfermaria em geral.
Já em 2016, no primeiro dia de internamento em Cross Lane, a A — minha mulher — levou-me um saco com alguns produtos de higiene e roupas, bem como um caderno e uma esferográfica. Mais ou menos o material costumeiro para um internamento. Como era algo que vinha do exterior, a enfermeira R verificou todo o conteúdo do saco — um dia falo destes procedimentos, pois são padrão em todas as admissões. Para meu espanto, entre trusses e coturnos brancos com raquetes, espreitaram atrevidos dois pequenos chocolates Double Decker.
Era uma surpresa da A, obviamente. Quanto a mim, fiquei atrapalhado, como se tivesse sido apanhado por um Guardia Civil com dois volumes de SG Gigante enfiados no pára-lamas.
«Ops, I’m sorry! I didn’t know that the chocolate was in there…»
Para meu novo espanto, a R simplesmente sorriu ao ver-me embaraçado e sossegou-me, não havia problema. Afinal, ali podíamos ter chocolates no quarto. Aliás, podíamos até, se quiséssemos, levar as refeições para o quarto e almoçar ou jantar lá — o quarto tinha uma mesa.
Voltando a 2000 e ao Conde de Ferreira, à famosa sétima enfermaria de homens, houve um dia em que arrisquei traficar uma barra de chocolate para o quarto.
Como me fazia sempre acompanhar pelo meu caderno onde apontava tudo, encostei a tablete ao lado interior, ou seja, o que está mais perto do corpo quando o seguramos. Tal como um cachopo que acabou de partir os binóculos do pai e passa de lado em frente ao sofá com os pedaços atrás das costas, lá levei a mercadoria ilegal para o quarto. Escondi-a muito bem sob a roupa, dentro do saco de desporto que me acompanhou ao longo dos internamentos — um saco Samsonite verde, que ainda hoje uso quando vou passar apenas um ou dois dias fora.
No entanto, parece que não o escondi lá muito bem. Ou então até poderei ter escondido, mas, no dia seguinte após o almoço, um colega de quarto, muito naturalmente, diz-me que o chocolate era muito bom e que vai buscar mais. «Sim, ao teu saco.» Buscar. Mais. Chocolate. Ao. Teu. Saco. Esta frase, para meu susto seguramente visível, pressupunha que o J sabia do chocolate. Pior: sabia do chocolate e já tinha comido dele! Tinha andado ali com aquelas mãos e com a boca e sei lá o que mais… eu sou muito esquisito.
Sem hesitar, fui ao saco e dei-lhe o resto do chocolate. «Pega, é todo teu!»
Olhando para trás, a uma distância de mais de um quarto de século, não consigo recordar-me se lho ofereci por inocente empatia, ou se simplesmente quis ver-me livre daquele chocolate cheio de impressões digitais alheias. Para tornar a coisa mais bonita e romântica, vamos forçar-nos a imaginar que foi a primeira hipótese.




