As filas para as refeições

16 de Janeiro de 2026


Observei, em quase todos os internamentos, um fenómeno muito interessante: as filas prematuras para as refeições. A excepção surgiu no internamento em Cross Lane, no Reino Unido, mas falarei mais adiante da razão.

Cinco minutos, dez minutos, por vezes meia-hora antes das refeições, os doentes interpretam um bailado já bem ensaiado nas imediações da copa. Espreitam, olham, perguntam as horas uns aos outros, resmungam, juntam-se em grupos de dois ou três. Outros ainda, que eu sempre conheci calados, permanecem, claro está, calados, mas também se aproximam.

Não adianta resmungar, desesperar, gritar, ir ao gabinete dos enfermeiros dizer que estamos com o açúcar baixo e a impaciência alta. É uma guerra perdida, um gasto desnecessário de energia e, claro está, da paciência dos enfermeiros. A copa so abrirá à hora marcada, nem um minuto antes… talvez uns minutos depois.

Eu não sou enfermeiro, e, para além dos enfermeiros que conheci enquanto doente, não conheço nenhum especializado em psiquiatria. No entanto, acredito, acredito convictamente, que aquelas meias-horas prévias às refeições são a pior parte do seu dia de serviço.

Os doentes saem um a um da aglomeração, e vão bater à porta dos enfermeiros, espaçados por pequenos intervalos de tempo. Como têm de conferir a medicação para dar aos doentes à hora de refeição, e distribuí-la por pequenos copinhos individuais, os enfermeiros pedem, imploram e voltam a responder «ainda não são horas».

Se os enfermeiros querem, «precisam» de estar sossegados para não dar Fluoxetina a um doente em estado maníaco, também os auxiliares são massacrados com perguntas insistentes, por vezes até com alguns impropérios de estiva.

Mas, então, o que nos levava, sim, a mim também, a rondarmos a copa meia-hora antes? Qual seria o motivo para tal antecipação?

Curiosamente, não seria a fome. Não gastávamos grande energia dentro de uma enfermaria, excepto se caminhássemos no corredor o dia inteiro — por vezes fazia isso, ou quase, passando longas horas a caminhar para trás e para diante, na esperança de manter alguma forma física ou simplesmente para espairecer. E não era o único, numa outra crónica falarei disso. A principal razão, aliás, a magna causa e quase única, era o tédio.

O pequeno-almoço, o almoço e o jantar, dentro de uma enfermaria, são as grandes festividades do dia. De resto, é um imenso mar de tédio. Para quem recebe visitas — e eu recebi sempre, todos os dias dos meus numerosos internamentos, fui um privilegiado —, aquele pedaço da tarde é, efectivamente, o grande momento. No entanto, fora isso, apenas as refeições quebram toda aquela monotonia chata.

Terminamos o pequeno-almoço e ficamos a contar as horas até ao almoço. Acabamos de almoçar e ficamos a contar as horas até à hora da visita. Termina a visita e ficamos a contar o tempo até ao jantar. E depois, ficamos a contar o tempo até à ceia, antes de irmos dormir.

No meu caso, a conversa com o médico no final da manhã, depois daquele ter estado nas consultas externas, era uma festividade adicional — tal como nas visitas e em quase todo o resto, fui um privilegiado também neste aspecto. Isso aconteceu diariamente durante os internamentos no Conde de Ferreira e  no Magalhães Lemos. Nos restantes hospitais, a norma para a frequência de consultas era de uma ou duas vezes por semana.

Em Cross Lane, não havia filas por que razão? Na minha opinião, isso acontecia porque a copa permanecia sempre aberta, independentemente da hora. A copa tinha, inclusive, uma máquina de água quente, saquinhos de chá, de café, chávenas e canecas, e até sumos, leite — quente ou frio — e bolachinhas disponíveis ao longo do dia. Isto permitia que nos encontrássemos frequentemente na copa, convivêssemos, fôssemos com a nossa caneca de chá até ao jardim conversar com os outros doentes ou enfermeiros — os ingleses não dispensam a sua canequinha que vão enchendo com chá, e eu também passei a não dispensá-la durante aquele internamento.

Por cá, o único hospital que mantinha a copa aberta de forma constante era o São João, uma vez que dava passagem para a sala de fumadores. Se houvesse um chazinho e umas bolachinhas não seria mau e a hora do almoço não seria tão ansiada, mas só havia mesas, cadeiras… e os cadeirões dos velhinhos na hora do Tetris.


Conteúdos de natureza literária e testemunhal. Não constituem aconselhamento médico, psicológico ou jurídico. Leitura e interpretação da exclusiva responsabilidade do leitor. Os nomes e dados identificativos das pessoas citadas são alterados de forma a preservar as suas identidades.

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