Olh’ó Rebuçado da Régua!

9 de Janeiro de 2026


Quando era miúdo, havia umas senhoras que percorriam os comboios suburbanos, de carruagem em carruagem, a vender corta-unhas, baralhos de cartas, pilhas, torrões de amendoim e ainda sucedâneos de chocolate espanhóis a 100 escudos cada conjunto de quatro — ou seja, tudo do que uma pessoa precisava para ser feliz na vida. Estas senhoras eram de cá do Porto, traziam um grande avental com folhos, e passavam o dia a saltitar entre os comboios das linhas que partiam do centro da cidade.

Havia, no entanto, umas outras senhoras que vinham de mais longe, da Régua. Imagino que saíssem de casa cedíssimo, e viajassem num daqueles comboios regionais que partiriam ainda de madrugada. Traziam, em grandes sacos de plástico grosso e já pouco transparente pelo uso, uns rebuçados artesanais feitos com açúcar, ervas aromáticas e mel, muito justamente chamados de «rebuçados da Régua».

Quando cá chegavam, guardavam o saco numa qualquer loja ali pelas redondezas de São Bento, que lhes emprestava um cantinho até ao final do dia. Depois, tal como as senhoras das «pilhas para rádio», iam uma ou duas vezes ao saco reabastecer uma canastra com aqueles embrulhinhos em papel vegetal.

E porque se me afloraram à memória as rebuçadeiras da Régua? Já vão perceber porquê.

Num dos hospitais onde estive internado, o Conde de Ferreira, no Porto, a ceia era uma refeição simples de um pacote de bolachas e um copo com uma água escura excessivamente açucarada, provavelmente para cortar o amargo daquilo a que teimavam chamar de cevada. Passávamos, em fila indiana, por um tabuleiro em arame onde recolhíamos o copo de plástico ainda um pouco húmido — aquele plástico muito resistente, rugoso, e com cores bem típicas de há umas décadas —, para depois o estendermos ao funcionário ou enfermeiro. Este enchia o copo a partir de um grande fervedor em alumínio, já veterano do Biafra e com velhas cicatrizes de zagalote.

Ao contrário das outras refeições, nas quais tínhamos de sentar-nos em lugares pre-determinados, a ceia, naquele hospital em particular, era uma ocasião de maior descontracção. Podíamos sentar-nos onde quiséssemos, ou até comer de pé, como numa pausa para café de uma apresentação da Avon.

Sim, é tudo muito bonito, mas, e os rebuçados da Régua, quando aparecem? Calma, já lá vamos.

Havia dois enfermeiros — o R e outro do qual não registei o nome —, que, assim que os copos estavam bem fornecidos e já roíamos as bolachas integrais que vinham em saquinhos de plástico individuais, apregoava alto e bom som: «Morfex! Quem quer Morfex? Morfex! Morfex para alguém? Vocês aí, querem Morfex? E tu, também queres?».

Aquela hora de alegre partilha e distribuição de Morfex, como quem atirava cavacas da Capela de São Gonçalinho, pior, como quem clamava alto e bom som «Olh’ó rebuçado da Régua», sempre ficou na minha memória como das coisas mais estranhas a que assisti em todos os internamentos.


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