Quando fui internado no Hospital de Cross Lane, em Scarborough, o enfermeiro que me levou ao quarto avisou para não deixar a janela aberta até cima. «Só uma frinchinha, bem estreita», e mostrou os dedos indicador e polegar paralelos entre si, a uma curta distância, enquanto arregalava os olhos e punha os lábios em bico, como se estivesse a assobiar.
Se eu não percebera aquele aviso meio apatetado, de que qualquer nortúmbrio depreenderia o sentido, mais confuso fiquei quando me lembrei que estávamos em Agosto. Já não fazia frio, embora um mês antes ainda tivéssemos usado casacos pesados e ligado o aquecimento central do apartamento.
«Por causa dos esquilos», explicou, «eles entram e dão cabo disto tudo».
Ah, afinal não seria o cruel frio do Mar do Norte, de gelo na barba e gola alta à Capitão Haddok, ao estilo do Fisherman’s Friend e da fórmula norueguesa da Neutrogena. Eram esquilos! Esquilinhos, umas bolas de pelo fofinhas e meiguinhas.
Alguma vez viram esquilos? Sim, esquilos a sério, au naturel. Não vale dizer que viram num jardim zoológico, o Tico e o Teco na revista do Tio Patinhas, ou, pior ainda, o irritante Alvin.
Compreendo. Em Portugal, não é comum vermos esquilos a cada esquina. Nem sequer nas florestas é fácil depararmo-nos com um esquilo, embora, se estivermos atentos, possamos encontrar pinhas roídas, mais ou menos num padrão semelhante ao que fazemos quando comemos maçãs e deixamos o caroço. Estejam atentos na próxima caminhada pela floresta.
Se, por cá, estes simpáticos roedores são raros e esquivos, em grande parte das cidades transpirenaicas os esquilos fazem parte do dia-a-dia. Para além de serem comuns nos jardins e parques urbanos, compõem a fauna urbana de uma forma tão natural como por aqui os pombos, os pardais e demais passarões e passarolas voadoras.
São, realmente, muito fofinhos. Aprendi que os esquilos se aproximam facilmente de nós, e vêm comer à nossa mão. Gostam especialmente de frutos secos e cereais do pequeno-almoço. Aproximam-se, um pouco hesitantes, com movimentos curtos e muito rápidos, olham-nos com as orelhas espetadas, e, se falarmos com eles mais ou menos como fazemos com os gatos, naquele tom mimoso, vão perdendo o medo, embora muito mais lentamente. É uma tarefa morosa e de paciência, mas consegue-se ganhar a confiança daqueles bichinhos.
Ora, enquanto os esquilos podem ser muito amorosos connosco, já não o são entre eles. Aprendi que são extremamente territoriais, em especial os esquilos-cinzentos, como os que agora povoam grande parte da Grã-Bretanha.
Como espécie exótica nativa da América do Norte — como aprendi com o meu colega de internamento T —, o esquilo-cinzento rapidamente expulsou o original esquilo-vermelho do seu habitat. Essa redistribuição ocorreu tanto por competição, por vezes agressiva, como por novas doenças importadas do outro lado do Atlântico. São animais significativamente maiores do que eu pensava: some-se o comprimento do corpo à cauda grande e farfalhuda, e fica com as dimensões de um gato!
Pude confirmar a territorialidade dos esquilos-cinzentos numa tarde, durante um passeio pelos jardins do hospital. Dois exemplares engalfinharam-se numa luta feroz, enrolando-se, saltando, mordendo e arranhando, fundidos numa mole disforme que rodopiava sobre si própria. Aquela confusão feroz de guinchos e pelos durou alguns segundos, até que um dos esquilos desistiu, e foi expulso pelo outro, que ainda o perseguiu a alta velocidade por várias dezenas de metros.




