Tão certo como a morte e os impostos é perguntarem-nos, quando fazem o acolhimento para um novo internamento, se trazemos cinto, enquanto nos levantam a camisola (o enfermeiro nunca vai nem pode acreditar em nós, por questão de princípio; espreita sempre para ver se temos cinto, digamos o que dissermos). A outra questão sacramental é se fumamos. Se for o caso, explicam a política da casa: «antes de irem dormir devem entregar-nos os isqueiros. Devolvemos de manhã, depois do pequeno-almoço».
Se o caso do cinto é facilmente compreensível — ninguém quer entrar na casa de banho a meio da noite e levar com umas pernas no meio da testa —, a segunda exigência por vezes gera polémica entre os doentes. Não porque a incumpram, mas porque antes do pequeno-almoço acumula-se já um numeroso grupo a queixar-se de que ainda não fumou.
Invariavelmente, todas as manhãs bem cedo, há doentes que vão ao gabinete de enfermagem perguntar se já podem ter os isqueiros, mas a resposta é sempre a mesma. Nem vale a pena explicar qual. E então, reclamam, barafustam, esbracejam, gritam, e vão para o corredor queixar-se de que o enfermeiro — convenientemente perfilhado a uma profissional do relax para cavalheiros perfumados a Old Spice — lhes quer ficar com o isqueiro ad aeternum.
A «traça», a «larica», a «ráfia» — nunca tinha ouvido estas designações para a falta de tabaco, só de pão alentejano e azeitonas galegas —, o já «estou a ficar passado», vão emudecendo durante o pequeno-almoço, para finalmente cessarem num alívio unanimemente ovacionado quando são distribuídos os ditos.
Quanto aos maços de tabaco, dormem com os isqueiros na mesma gaveta, devidamente rotulados a marcador com o número da cama. Esta não é, pelo que pude perceber, uma prática universal: nalguns locais recolhem somente os isqueiros. Este hábito dá azo ao tráfico de tabaco nos quartos. Há uma certa informalidade levantina nestas autênticas transacções de souk, quase como que um código ancestral — «pega lá um, do que me deste ontem, mas se hoje me deres dois, amanhã devolvo três» —, e muito raramente vi discussões sérias em torno dos cigarros.
Tudo isto serve para prevenir, como é óbvio, incêndios nas enfermarias, mas também uma coisa muito particular: não é permitido aos doentes saírem dos quartos durante a noite, muito menos em grupo. As saídas apenas são autorizadas para os doentes irem à casa de banho, quando esta fica no corredor, ou, claro, quando há uma emergência.
Ora, eu não fumo. Nunca tive de me preocupar com isqueiros ou tabaco. No entanto, por vezes entrava de forma breve nas salas de fumadores para conversar com este ou aquele doente, ou para chamar alguém a pedido de um enfermeiro. Não são espaços agradáveis para não-fumadores. Costumam ser barulhentos, por causa da ventilação mecânica que mais se assemelha a um exaustor do Rei dos Frangos, e, claro, mal-cheirosos, como as noites de quinta-feira no bilhar do Aviz.
Reparei que, em alguns hospitais, essas salas têm um isqueiro eléctrico embutido na parede. É um aparelho mais ou menos do tamanho de um livro, em aço inoxidável ou cromado, e com um pequeno orifício circular onde enrubesce uma resistência ao toque de um botão. Desconheço, porque não me recordo nem tomei nota, se nestes hospitais é permitido aos doentes terem isqueiros ou permanecerem com o tabaco durante a noite, mas a lógica dir-me-ia que não.
De qualquer modo, os isqueiros — e o tabaco — parecem-me ser um dos principais pontos de discórdia entre os internados e os enfermeiros nos hospitais portugueses. Quase tanto como as autorizações de saída a meio da manhã, que suplantam todos os outros desentendimentos. Curiosamente, no Hospital de Cross Lane, em Scarborough, a pequena brochura de boas-vindas indicava que não era permitido fumar em todo o recinto, nem mesmo nos jardins ou parques de estacionamento; talvez por isso, nunca vi qualquer discussão ou queixume pela falta de isqueiros.




