Sobre as Crónicas
Como apareceram as Crónicas da Clozapina?
Durante muitos anos, a Clozapina foi minha companheira do dia-a-dia. Não apenas a Clozapina, mas também muitas outras suas amigas que foram entrando e saindo da minha vida, num bailado terapêutico bem típico de quem sofre de uma doença mental grave.
Aquilo que começara como um diagnóstico mais tarde considerado errado, acabou por tornar-se na maior experiência social que alguma vez poderia ter realizado; uma experiência em primeira mão, não apenas minha, mas de todos os que me acompanharam, com destaque para a minha família.
Talvez a consciência inconsciente — perdoai-me o oxímoro — de que não era doente psicótico me tenha dado uma capacidade analítica de todo aquele percurso por entre os corredores de hospital. De facto, senti-me sempre privilegiado em relação aos outros doentes, percebia-o. Existia ali «algo» que por vezes era descaradamente notório, e tenho a certeza de que talvez houvesse quem também percebesse e se colocasse a dúvida.
Foram mais de duas décadas, entre 2000 e 2023, que me deram a oportunidade de viver incontáveis vezes em enfermarias e hospitais psiquiátricos. Pude conhecer pessoas muito diferentes, desde médicos a enfermeiros, mas principalmente outros doentes. Com eles vivi, ri, chorei, e descobri que há uma comunidade extremamente rica e desconhecida para lá daqueles muros. Com eles, também eu fui doente.
Aqueles fantásticos Seres Humanos tiveram o condão de me ensinar algo, e com todos aprendi e continuo a aprender. Conheci histórias tristes, terríveis, algumas mesmo de inenarrável sofrimento, mas também de esperança, de companheirismo, de amizade, de humildade, de sinceridade, de sabedoria. Não imaginais o quanto se aprende com os outros doentes!
Cessei completamente a medicação em 2023, num dia simbólico, 9 de Maio, quando se completaram 23 anos do primeiro internamento. Custou. A retirada não foi um processo simples, com alguns incidentes e acidentes, e uma acrescida precaução que viria a tornar as coisas mais suaves.
Antes da retirada total, encontrava-me já sem dose considerada terapêutica desde 2020. Por medo, decidi pedir ao médico para sairmos com extrema precaução, numa curva muito suave e quase assimptótica ao zero. Nos últimos dois anos de medicação — para os quais me foi dada autonomia de gerir a medicação —, dei por mim a partir comprimidos em fragmentos progressivamente mais pequenos, a alternar dias e semanas, e a terminar com uma dose ridiculamente baixa de algo que já só quase eram grãos de pó.
Actualmente não tomo qualquer medicação, não mais fui internado — o último internamento foi no Verão de 2018 —, e poucos, menos do que os dedos de uma mão e contando com a família próxima, conhecem aqui e ali alguns pontos isolados da minha fantástica jornada.
Aqui se reunem algumas crónicas escritas nos últimos anos, e que irei libertando de forma periódica. Muitas há para escrever ainda, e os meus cadernos com os registos de todos aqueles internamentos guardam muitas surpresas.
Estes textos são dedicados à minha família e a todos os que vivem ou já viveram experiências semelhantes.
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Nem tudo se resolve sozinho. Nem tudo tem de ser suportado em silêncio.
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